Quem está falando: Você ou a IA?

É crescente a desconfiança sobre o que é comunicado por empresas, marcas e indivíduos. Cada vez mais, a dúvida não está apenas no conteúdo da mensagem, mas em sua origem: o que nos chega foi elaborado por alguém que domina o assunto e acredita no que está dizendo ou foi simplesmente produzido a partir dos comandos de uma inteligência artificial?

Essa inquietação já encontra respaldo em pesquisas recentes. No relatório Connected Consumer Survey 2024, realizado pela Deloitte nos Estados Unidos, 70% dos entrevistados familiarizados com inteligência artificial generativa afirmaram que a tecnologia tornará mais difícil confiar no conteúdo encontrado online. Além disso, 59% disseram ter dificuldade em distinguir aquilo que foi produzido por seres humanos do que foi gerado por máquinas. Em um ambiente em que a autoria se torna cada vez menos evidente, a credibilidade deixa de ser presumida e passa a exigir demonstrações concretas.

Diante desse cenário, ganha ainda mais relevância a máxima de que um CNPJ é a resultante dos CPFs que o constituem.

A lógica, na verdade, não é nova. Desde muito antes da transformação digital, as organizações mais bem-sucedidas compreenderam que seus resultados dependem da capacidade de atrair pessoas alinhadas à sua cultura, aos seus valores e aos desafios estratégicos do negócio. A tecnologia evolui, os modelos de gestão se transformam, mas um princípio permanece inalterado: são as pessoas que dão vida às organizações.

A inteligência artificial pode reproduzir padrões de linguagem, estruturar argumentos e até simular determinados estilos de comunicação. O que ela não consegue reproduzir é a experiência vivida, a convicção genuína, a coerência construída ao longo do tempo e a confiança que nasce das relações humanas. Em outras palavras, pode mimetizar um pensamento, mas não sustentar o poder do “olho no olho”.

É nesse contexto que o perfil dos líderes ganha relevância ainda maior. E cabe especialmente ao CEO exercer esse papel de forma inequívoca. Sua trajetória, seus valores, sua visão de mundo e a forma como toma decisões precisam ser percebidos de maneira consistente por todos os seus públicos.

Se a empresa é reconhecida pela excelência, por um posicionamento premium e pela proximidade com seus clientes, espera-se que essas características estejam refletidas não apenas em suas campanhas institucionais, mas também na conduta diária de seus líderes. Sua biografia, suas interações e suas manifestações públicas devem reforçar, de forma natural, aquilo que a organização afirma ser.

O mesmo raciocínio se aplica a empresas, por exemplo, cuja proposta de valor está associada à eficiência, ao pragmatismo e à simplificação da experiência do cliente. Seus principais executivos precisam representar esses atributos de maneira legítima e coerente.

Independentemente do perfil da organização, existe um elemento comum: a necessidade de integridade, consistência e autenticidade. Essa responsabilidade não se restringe ao CEO. Ela se estende a todo o C-Level e, em diferentes graus, a todos que compõem a empresa. Afinal, quanto maior a influência de um CPF dentro da organização, maior também será sua capacidade de fortalecer — ou enfraquecer — a reputação do CNPJ que representa.

Em seu livro Walk the Talk, Carolyn Taylor defende que as culturas organizacionais são definidas muito mais pelos comportamentos que as pessoas observam do que pelos discursos que elas escutam. A inteligência artificial tornou essa reflexão ainda mais atual.

Quando qualquer mensagem pode ser produzida por uma máquina em poucos segundos, a confiança ganha peso substancialmente maior com aquilo que continua exclusivamente humano: coerência, caráter e autenticidade. E isso exige que todos nós estejamos dispostos a mostrar que nossas presenças, imagens e discursos são reais.